ABGLT SOLICITA RETIRADA DE OUTDOOR 'CARLAO... A LATARIA E OTIMA, MAS O CHASSI PODE ESTAR ADULTERADO'
2012-06-11 19:20:26

Ofício PR 080/2012 (TR/dh) Curitiba, 11 de junho de 2012


À: Zumba Propaganda
A/C Sr. Erick Cypriano
Diretor de Criação
erick@zumbapropaganda.com.br


Assunto: Solicitação de retirada do Outdoor INSPEC – “Adulterado”


Prezado Senhores

A Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT) – é uma entidade de abrangência nacional, fundada em 1995, que atualmente congrega 257 organizações congêneres e tem como objetivo a defesa e promoção da cidadania desses segmentos da população. A ABGLT também é atuante internacionalmente e tem status consultivo junto ao Conselho Econômico e Social da Organização das Nações Unidas. A missão da ABGLT é Promover ações que garantam a cidadania e os direitos humanos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, contribuindo para a construção de uma sociedade democrática, na qual nenhuma pessoa seja submetida a quaisquer formas de discriminação, coerção e violência, em razão de suas orientações sexuais e identidades de gênero.

Tendo isto em vista, a ABGLT gostaria de expressar sua indignação com o outdoor da empresa INSPEC Vistorias para Transferência de Veículos, criado por esta Agência, que está sendo veiculado no interior do Estado de São Paulo, com o texto: “Carlão, 28 anos... A lataria é ótima, mas o chassi pode estar adulterado”.

Nossa consternação se dá pelo fato de que a população de travestis é entre as mais discriminadas no Brasil e que o outdoor contribui para referendar e banalizar essa discriminação, ridicularizando a personagem travestida. Para ilustrar, em pesquisa feita na Parada LGBT de São Paulo em 2005, 77,% das pessoas travestis e transexuais afirmaram já ter sofrido agressão verbal/ameaça de agressão em virtude de sua sexualidade (www.clam.org.br).

Para entender nosso posicionamento, bastaria ridicularizar a personagem do outdoor por causa da cor de sua pele ou por causa de sua raça, para perceber que o conteúdo é discriminatório.

Ao mesmo tempo em que entendemos que é preciso ter bom humor, não se deve utilizar-se da fragilidade de uma população para vender um produto. Isto não é condizente com o preceito constitucional da dignidade humana.

Para fundamentar nosso posicionamento e nossa solicitação de retirada do outdoor, contamos com a valiosa contribuição da doutoranda Sra. Luma Nogueira de Andrade e do professor de história e doutorando Sr. José Wellington de Oliveira Machado, cujo parecer a respeito do outdoors segue anexo e explica em profundidade por que o outdoors, apesar de ter a intenção de ser humorístico, causa ofensa e desrespeita a dignidade humana das pessoas travestis e transexuais, contribuindo para reforçar o estigma e o preconceito sofridos por elas.

Assim sendo, solicitamos a retirada do referido outdoor, com o intuito de encontrar uma solução amistosa para essa situação constrangedora.

Na expectativa de sermos atendidos, estamos à disposição.

Atenciosamente,

Toni Reis
Presidente

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A PROPAGANDA É A ALMA OU A ARMA DO NEGÓCIO

Autores(as): Luma Nogueira de Andrade
José Wellington de Oliveira Machado


As travestis carregam os fenótipos de uma nova e moderna estética corporal, são imagética e afetivamente, femininas. Mas, transportam também os genótipos de sua ambiguidade, são biologicamente masculinas e femininas. Não existe um padrão, em momentos específicos podem agir dentro do modelo afetivo que convencionamos chamar de masculino e em outros momentos podem agir de forma oposta, no feminino.
Mesmo que altere seu corpo cirurgicamente e tenha todos os trejeitos próprios do gênero com o qual ela se identifica, não consegue (ainda) o aval definitivo da sociedade porque as pessoas continuam cobrando o que seria original, o que seria a essência, o que seria a natureza e a biologia do ser (FOUCAULT, 1993). Quando olham para a travesti, observando da cabeça aos pés, não estão apenas admirando ou repudiando o seu lado feminino, estão procurando a anatomia sexual do nascimento. Quando perguntam sobre a origem, não estão querendo saber de sua autoconstrução poética, não estão querendo saber de sua estética, estão querendo saber de sua genética, dos seus cromossomos, de sua suposta “essência biológica” (que seria masculina, de acordo com a certidão de nascimento, como se fosse o chassi que aparece na foto acima).
Por trás dessa propaganda, que aparentemente é inofensiva, existe uma carga de preconceito, de chacota, de brincadeira, de piada, que chega a incomodar quem tem um olhar de respeito à diversidade. A maioria da sociedade, ao contrário do que queremos e do que pensamos, se acomoda com a situação e se incomoda com as travestis. Mas, antes de falar dessa propaganda é importante fazer uma pequena reflexão: O que incomoda a sociedade (e a mídia de modo geral) não é a travesti em si, é o paradigma que ela representa, não é a sua vida trans (apenas), é a simbologia da metamorfose. A maior preocupação (por mais que não se admita) é com a vida das pessoas que aparentemente são fixas, o medo não é por conta dos indivíduos que estão em trânsito, é por causa dos indivíduos que estão cristalizados, eles podem, uma hora ou outra, perceber que também têm várias faces.
O que os idealizadores do Outdoor não perceberam é que as travestis são polissêmicas (elas podem ter vários significados). Eles ajudaram, portanto, a produzir um arquétipo de beleza, um padrão de normalidade que tenta desumanizar o que consideram como seres abjetos. As travestis também são humanas, elas sonham com esse padrão de feminilidade, mas, não se limitam a ele. Elas incomodam exatamente por isso, podem ser, ao mesmo tempo, femininas e masculinas, heterossexuais e homossexuais, bissexuais e “plurissexuais”. É por isso que parte da sociedade tem tanta dificuldade para classificar, ficam procurando uma face única, como se fosse possível “jogar” a travesti para o alto e definir se é “cara” ou “coroa”.
As estratégias de marketing que vemos na TV, nas rádios, nos jornais, nos panfletos, nos cartazes e nos Outdoor se baseiam exatamente nos padrões tradicionais da sociedade. Os designers das grandes empresas, ou pelo menos uma parte deles, se apropriam dessa norma para buscar o centro (onde, supostamente, está o normal) e legitimam o preconceito contra as pessoas que historicamente foram relegadas à margem. A Propaganda, como qualquer arte, também se alimenta dos preconceitos da sociedade e, consequentemente, os preconceitos também se alimentam da propaganda.
Os marqueteiros das pequenas, médias ou grandes empresas não vendem apenas produtos, vendem ideias. A junção artística de uma travesti, com as frases “a lataria é ótima, mas o chassi pode está adulterado”, “Carlão 28 anos. Zagueiro, adora jogar futebol” e “faça sempre vistoria veicular” é um “campo minado” de significados que tenta implodir as travestilidades. Apesar de mostrar que a lataria do carro pode ser bela como uma travesti, o anúncio destaca que o chassi pode está adulterado. Essa ideia de chassi adulterado pode gerar uma série de interpretações: o que os idealizadores querem dizer com adulteração? Eles estão falando do nome? Da identidade? Do órgão sexual? Ou será que é da frase “adora jogar futebol”? Que chassi é esse que está foi falsificado? Como é um chassi original? Por que a travesti é o falsificado? Qual é o valor do que é falsificado? Nós não sabemos o real significado das frases, mas percebemos, claramente, que se trata de um estereótipo.
Na cultura hegemônica ocidental, a identidade (que também pode ser vista como um chassi) é um documento, é uma ferramenta estatal, é um pedaço de papel que serve como código de barra, uma imagem cristalizada, um nome próprio, um conjunto de números, uma assinatura, uma filiação, uma origem, uma naturalidade, uma sexualidade. Talvez seja essa identidade masculina (biológica) que os idealizadores estão procurando para desqualificar o gênero feminino (original) das travestis. A parte mais grave dessa história é a ideia da vistoria, a propaganda não fala apenas de falsificação, ela sugere uma observação por parte do cliente em relação aos carros e, consequentemente, às travestis.
É importante trazer à tona a reflexão de Zygmunt Bauman sobre “a criação e anulação dos estranhos”, para o autor: “todas as sociedades produzem estranhos... cada espécie de sociedade produz sua própria espécie de estranhos... Os estranhos são as pessoas que não se encaixam no mapa cognitivo, moral ou estético do mundo”. Os estranhos são aqueles seres que, nas frinchas da sociedade, “deixam turvo o que (supostamente) devia ser transparente” ou “devia ser uma coerente receita para a ação”, os estranhos são aqueles que “poluem a alegria” dos que se orgulham de cumprir a tradição “com a angústia” do “fruto proibido”; que riem das certezas da norma, que “obscurecem e tornam tênues as linhas de fronteiras que (supostamente) deviam ser claramente vistas” (BAUMAN, 1998, pag. 27).
Como lembra Albuquerque Jr. (2007, pag. 09), “os grupos humanos, na maioria dos casos, buscaram definir suas identidades a partir do estabelecimento de diferenças em relação aos grupos mais próximos”, a identidade é construída e legitimada “através da emulação, da disputa e competição com o outro”, que, na maioria das vezes, “aparece como o estranho, o estrangeiro, a ameaça, o perigo, o inimigo”.
Esse estranho, citado por Bauman e Albuquerque Jr., era aniquilado através de duas estratégias, uma antropofágica, que devorava o estranho, que retirava suas substâncias estranhas (suas ousadias) e assimilava o resto, tornando-o semelhante, dentro das possibilidades de convivência; a segunda estratégia era antropoêmica, na qual não aceitava nem mesmo a assimilação, queria “vomitar os estranhos, bani-los dos limites do mundo ordeiro e impedi-los de toda comunicação com o lado de dentro. Era essa a estratégia da exclusão – confinar os estranhos dentro das paredes visíveis dos guetos”. Quando nenhuma das duas estratégias era possível, a saída era destruir fisicamente os estranhos, negando qualquer possibilidade de identificação.
Essa ordem, como mostra Bauman, é “um meio regular e estável” que busca delimitar “nossos atos”; é um mundo fantástico, onde as probabilidades não estão “distribuídas ao acaso”, onde tudo está arrumado “numa hierarquia estrita”. No meio desse mundo mágico, onde quem realmente manda é a disciplina e a moral, existem acontecimentos que são “altamente prováveis, outros que são menos prováveis e alguns que são virtualmente impossíveis” (BAUMAN, 1998, pag. 13-15). O propósito, no final das contas, é a limpeza social, uma pureza de identidade que não existe e que, obviamente, nunca existiu.
Em meio a essa Identidade e higienização brotam outras identidades que podem ou não serem cristalizadas: identidades de gênero, identidades regionais, identidades étnico-raciais, identidades que podem ou não entrar em conflito com as identidades oficiais. É dentro desse contexto que surge o Movimento LGBTT e as lutas por uma sociedade mais justa, igualitária (em termos de direitos) e diversa (em termos de expressões culturais, costumes e orientações sexuais). Essa propaganda seria ingênua se não alimentasse os estereótipos que tanto questionamos, os idealizadores sabem muito bem que essa ideia (da travesti como adulterada) está presente no intimo da sociedade, é exatamente por isso que eles usaram a metáfora. A chacota do Outdoor se transformou na alma do negócio ou, se preferir, na arma do negócio. A propaganda foi feita para ser forte por que se baseia em um preconceito que é forte.
Não estamos criticando a intenção da empresa de atrair clientes e vender um ideal de originalidade . Mas, ao passo que a empresa pode alcançar seus objetivos, com essa propaganda, o machismo, o sexismo e a transfobia também podem. A travesti, como qualquer outro ser humano, não pode ser apresentada como um chassi adulterado.

“Trata-se de uma construção de si peculiar e original onde do ponto de vista do gênero os indivíduos travestis se constroem pelo feminino (...) O reforço do binarismo de gênero em face das travestis incentiva o tipo de violência contra estes indivíduos: desde a desqualificação moral mas intensa até o frequente assassinato, as travestis são vítimas número um da violência discriminatória” (Roger Raupp Rios, apelação civil nº 2001.71.00.026279-9/RS).

Neste contexto, a propaganda supracitada não é apenas uma representação ou uma metáfora, é uma produção de sentidos, além de vender os serviços à empresa está perpetuando uma imagem estereotipada que contraria os ideais de igualdade previstos no artigo 5º da Constituição Federal(1). Como dito por Berenice Bento:

“Os ‘normais’ negam-se a reconhecer a presença da margem no centro como elemento estruturante e indispensável. Daí elimina-la obsessivamente pelos insultos, leis, castigos, no assassinato ritualizado de uma transexual que precisa morrer cem vezes na ponta afiada de uma faca que se nega a parar mesmo diante do corpo moribundo. Quem estava sendo morto? A margem? Não seria o medo de o centro admitir que ela (a transexual/a margem) mim habita e mim apavora? (BENTO, Berenice. O que é transexualidade. P. 38-39. Ed. Brasiliense).

Não é nosso objetivo responder essas perguntas, mas refletir sobre elas. São propagandas como esta, aparentemente ingênuas, que ajudam a alimentar barbaridades históricas que geram violências físicas e simbólicas, que contrariam a Lei. É por esta razão que vimos através deste solicitar as devidas providências para que a propaganda seja removida e os responsáveis arquem com as consequências da Lei.

[1] “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança, à propriedade nos termos seguintes: III. Ninguém será submetido a tortura, nem a tratamento desumano ou degradante (...) X. São invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurando o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação”.