Parlamentares LGBTQIA+ pensam e constroem o Brasil para além das pautas identitárias

 


Conheça mandatos que têm feito a diferença na defesa de direitos fundamentais e na construção de políticas públicas para toda a sociedade

Durante décadas, a participação de pessoas LGBTQIA+ na política institucional brasileira foi limitada por barreiras históricas, preconceitos estruturais e pela ausência de oportunidades reais de acesso aos espaços de poder. Embora o país seja reconhecido por sua diversidade cultural e social, a representação política dessa parcela da população permaneceu, por muito tempo, aquém da realidade brasileira.

Nos últimos anos, entretanto, esse cenário começou a mudar. A ampliação da presença de parlamentares LGBTQIA+ em câmaras municipais, assembleias legislativas e no Congresso Nacional representa não apenas uma conquista simbólica para grupos historicamente marginalizados, mas também um avanço democrático que amplia a pluralidade de vozes na formulação das políticas públicas.

Cada mandato conquistado carrega consigo uma trajetória coletiva construída por movimentos sociais, ativistas, educadores, lideranças comunitárias e cidadãos que lutaram para transformar invisibilidade em participação. São histórias marcadas por resistência, enfrentamento à discriminação e defesa de direitos fundamentais.

Ao contrário de uma percepção ainda difundida em determinados setores da sociedade, a atuação desses parlamentares não se restringe às chamadas pautas identitárias. Embora a defesa dos direitos humanos e o combate à discriminação permaneçam como compromissos centrais de muitos desses mandatos, sua produção legislativa alcança temas que afetam diretamente toda a população brasileira.

Questões relacionadas à educação, saúde, meio ambiente, mobilidade urbana, combate à pobreza, direitos trabalhistas, segurança alimentar, acessibilidade e desenvolvimento sustentável fazem parte do cotidiano desses representantes. Suas experiências de vida, frequentemente marcadas pela exclusão, acabam contribuindo para uma compreensão mais ampla das desigualdades sociais e dos desafios enfrentados por diferentes grupos da população.

Nesse contexto, alguns mandatos se destacam por iniciativas que ultrapassam fronteiras ideológicas e demonstram como a diversidade na política pode gerar impactos concretos para milhões de pessoas.

Duda Salabert: educação, meio ambiente e cidadania

Entre os nomes que simbolizam essa transformação está Duda Salabert, professora, ambientalista e ativista que, em 2022, entrou para a história ao se tornar a primeira deputada federal trans eleita por Minas Gerais.

Sua trajetória política é marcada pela atuação em defesa dos direitos humanos, da educação pública e da sustentabilidade ambiental. Antes de chegar à Câmara dos Deputados, Duda já havia conquistado reconhecimento nacional por sua militância em causas ligadas ao enfrentamento das mudanças climáticas e à inclusão social.

No Congresso Nacional, uma de suas iniciativas voltadas à população trans foi a proposta de criação do Dia Nacional da Visibilidade Trans, reforçando a importância do reconhecimento institucional de uma comunidade que historicamente enfrentou exclusão social, violência e dificuldades de acesso a direitos básicos.

Contudo, seu trabalho legislativo vai muito além desse campo.

Uma das propostas de maior impacto social apresentadas pela parlamentar foi o projeto que tornou obrigatório o acesso à água potável em escolas públicas de todo o país. Transformada em lei em 2025, a iniciativa surgiu a partir de dados preocupantes do Censo Escolar, que indicavam que mais de um milhão de estudantes frequentavam instituições sem acesso adequado à água potável.

A medida trouxe para o centro do debate uma questão essencial para a saúde pública, a qualidade da educação e a dignidade de crianças e adolescentes brasileiros. Afinal, garantir acesso à água não é apenas uma questão de infraestrutura. Trata-se de assegurar condições mínimas para o aprendizado, a permanência escolar e a proteção da saúde.

O exemplo demonstra como a atuação parlamentar pode combinar a defesa de grupos vulnerabilizados com a formulação de políticas públicas capazes de beneficiar toda a sociedade.

Daiana Santos: direitos humanos e valorização do trabalho

Outra liderança que vem consolidando sua atuação política é Daiana Santos, primeira mulher negra e lésbica eleita deputada federal pelo Rio Grande do Sul.

Sua trajetória está profundamente ligada aos movimentos populares, às lutas sindicais, ao movimento negro e à defesa dos direitos dos trabalhadores. Essa experiência moldou uma atuação parlamentar focada na redução das desigualdades e na ampliação das oportunidades para a população mais vulnerável.

Em 2025, Daiana assumiu a presidência da Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial da Câmara dos Deputados, um dos espaços mais importantes do Parlamento para o debate sobre cidadania, inclusão e garantia de direitos fundamentais.

Ao longo de sua atuação, a parlamentar tem se destacado pela defesa de melhores condições de trabalho e pela promoção de políticas voltadas à qualidade de vida dos trabalhadores brasileiros.

Entre suas iniciativas está a proposta de redução da jornada máxima de trabalho para 40 horas semanais, assegurando dois dias de descanso por semana. O debate sobre o equilíbrio entre vida profissional e vida pessoal tem ganhado relevância em diversos países e dialoga com transformações no mercado de trabalho, produtividade e saúde mental.

Daiana também se tornou uma das vozes mais atuantes nas discussões sobre o modelo de escala de trabalho conhecido como 6×1, tema que mobiliza trabalhadores de diferentes setores econômicos.

Seu mandato evidencia como representantes oriundos de grupos historicamente excluídos podem contribuir para debates estruturais que afetam milhões de brasileiros, independentemente de identidade de gênero, orientação sexual ou origem social.

Guilherme Cortez: juventude, educação e combate às desigualdades

Representando uma nova geração de lideranças políticas, Guilherme Cortez construiu sua trajetória pública a partir da atuação junto à juventude e à defesa da educação.

Deputado estadual em São Paulo, advogado e ativista, tornou-se conhecido por apresentar propostas voltadas à democratização do acesso ao ensino e à redução das desigualdades educacionais.

Entre suas iniciativas mais relevantes está o projeto que incorporou a educação climática ao currículo das escolas estaduais paulistas. A proposta reconhece que as mudanças climáticas representam um dos maiores desafios contemporâneos e que a formação das novas gerações desempenha papel fundamental na construção de soluções sustentáveis.

A medida busca preparar estudantes para compreender fenômenos ambientais, refletir sobre os impactos das transformações climáticas e participar de forma ativa das discussões sobre desenvolvimento sustentável.

Além disso, Guilherme também atuou na ampliação de direitos para estudantes com deficiência, fortalecendo políticas de inclusão educacional e acessibilidade.

Outro destaque de seu mandato foi a coordenação da reabertura da Frente Parlamentar em Defesa da Universidade Estadual Paulista, reforçando a importância da educação superior pública para a produção científica e o desenvolvimento do país.

O parlamentar ainda apresentou propostas relacionadas à garantia de meia-entrada e transporte para estudantes de cursinhos populares, ampliando oportunidades para jovens que buscam acesso ao ensino superior.

Sua atuação demonstra como a renovação política pode estar associada à defesa de políticas públicas capazes de gerar impactos duradouros para futuras gerações.

Bella Gonçalves: moradia, segurança alimentar e direitos sociais

A cientista política Bella Gonçalves também ocupa um lugar de destaque entre as lideranças LGBTQIA+ da política brasileira.

Primeira parlamentar estadual lésbica da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, Bella construiu sua trajetória ao lado de movimentos populares, organizações comunitárias e iniciativas voltadas à justiça social.

Seu mandato tem se caracterizado por uma atuação fortemente ligada ao combate à pobreza, à promoção da segurança alimentar e à defesa do direito à moradia digna.

Uma de suas principais contribuições foi a criação da Lei Estadual das Cozinhas Solidárias em Minas Gerais. A iniciativa fortalece projetos comunitários que oferecem alimentação gratuita a pessoas em situação de vulnerabilidade social.

Em um contexto marcado pelo aumento da insegurança alimentar em diversas regiões do país, políticas desse tipo assumem importância estratégica para garantir dignidade e proteção social às famílias mais afetadas pela pobreza.

Bella também participou da articulação de investimentos para a urbanização da Izidora, uma das maiores ocupações urbanas da América Latina.

A iniciativa busca promover melhorias em infraestrutura, saneamento, mobilidade e qualidade de vida para milhares de moradores, demonstrando como a atuação parlamentar pode contribuir diretamente para a transformação de territórios historicamente negligenciados pelo poder público.

Seu trabalho reforça a ideia de que representatividade não se limita à presença simbólica nos espaços institucionais. Ela se concretiza quando essa presença resulta em políticas capazes de melhorar a vida das pessoas.

Thabatta Pimenta: acessibilidade, inclusão e cuidado

No Rio Grande do Norte, Thabatta Pimenta tornou-se uma referência ao romper barreiras históricas na política local.

Radialista, ativista e defensora dos direitos das pessoas com deficiência, ela fez história ao se tornar a primeira vereadora trans do estado e, posteriormente, a mulher mais votada de Natal nas eleições de 2024.

Sua atuação política é profundamente influenciada por experiências pessoais. Mãe atípica e responsável pelos cuidados de um irmão com paralisia cerebral, Thabatta transformou vivências familiares em propostas concretas voltadas à inclusão e à acessibilidade.

Entre seus projetos está a política municipal de combate ao capacitismo, conceito que se refere à discriminação contra pessoas com deficiência.

A iniciativa busca promover conscientização, ampliar direitos e estimular mudanças culturais necessárias para a construção de uma sociedade mais inclusiva.

Além disso, a parlamentar apresentou propostas voltadas à garantia de intérpretes de Libras em maternidades e hospitais, ampliando o acesso à comunicação para pessoas surdas e fortalecendo o direito a um atendimento humanizado.

Seu mandato demonstra como experiências individuais podem contribuir para a formulação de políticas públicas sensíveis às necessidades de grupos frequentemente ignorados pelas estruturas tradicionais de poder.

Representatividade que fortalece a democracia

A presença crescente de parlamentares LGBTQIA+ nos espaços institucionais representa uma transformação significativa da democracia brasileira.

Quando diferentes grupos sociais passam a ocupar posições de decisão, amplia-se a capacidade do sistema político de compreender a diversidade de experiências que compõem a sociedade.

A representatividade não deve ser entendida apenas como uma questão numérica ou simbólica. Ela possui impactos concretos na formulação de leis, na definição de prioridades governamentais e na construção de políticas públicas mais abrangentes.

Parlamentares LGBTQIA+ frequentemente trazem para o debate temas que durante décadas permaneceram invisíveis. Contudo, sua atuação não se limita a esses assuntos. Ao assumirem funções legislativas, passam a lidar com questões relacionadas ao conjunto da população, participando das discussões sobre orçamento, educação, saúde, infraestrutura, desenvolvimento econômico e direitos sociais.

Essa pluralidade de experiências enriquece o debate público e fortalece a capacidade das instituições de responder aos desafios contemporâneos.

Muito além das pautas identitárias

A trajetória de Duda Salabert, Daiana Santos, Guilherme Cortez, Bella Gonçalves e Thabatta Pimenta evidencia uma realidade frequentemente ignorada pelos discursos simplificadores sobre política.

Embora suas identidades façam parte de suas histórias e influenciem suas perspectivas sobre o mundo, seus mandatos demonstram uma atuação ampla e conectada às necessidades da sociedade como um todo.

Água potável nas escolas, redução da jornada de trabalho, educação climática, combate à fome, urbanização de comunidades, acessibilidade em hospitais e inclusão de pessoas com deficiência são temas que transcendem qualquer recorte identitário específico.

São pautas relacionadas à cidadania, ao desenvolvimento social e à construção de um país mais justo.

Ao ocuparem espaços historicamente fechados à diversidade, essas lideranças ampliam horizontes e ajudam a consolidar uma democracia mais representativa, plural e participativa.

A presença de pessoas LGBTQIA+ na política não beneficia apenas a comunidade que representam. Ela fortalece o próprio sistema democrático ao incorporar novas experiências, perspectivas e formas de compreender os desafios nacionais.

Em um país marcado por profundas desigualdades sociais, ampliar a diversidade nos espaços de decisão significa aumentar as possibilidades de construir políticas públicas mais sensíveis à realidade da população. E, nesse processo, ganha não apenas um grupo específico, mas toda a sociedade brasileira.

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