Goiás Registra 12 Candidaturas LGBTQIA+ nas Eleições de 2026: Uma Nova Era de Representatividade Política
As eleições de 2026 em Goiás marcam um momento histórico para a comunidade LGBTQIA+. Pela primeira vez, o estado registra oficialmente 12 candidatos que declararam orientação sexual ou identidade de gênero diversa nos registros eleitorais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Este número representa não apenas uma conquista simbólica, mas também um avanço concreto na luta por representatividade política e inclusão social nos espaços de poder.
O levantamento realizado pelo Jornal Opção revelou nomes distribuídos entre diferentes partidos políticos e cargos eletivos, demonstrando que a participação da comunidade LGBTQIA+ na vida pública goiana está se diversificando e ganhando força. Entre os candidatos estão figuras já conhecidas do cenário político estadual e novos nomes que trazem perspectivas frescas para o debate público.
Distribuição dos Candidatos por Cargo e Partido
Os 12 candidatos identificados estão disputando vagas em três níveis diferentes de representação política. A maior concentração ocorre na disputa pela Assembleia Legislativa de Goiás (Alego), onde sete candidatos buscam uma cadeira no parlamento estadual. Outros quatro concorrem a deputado federal, enquanto um nome aparece como primeiro suplente de senador.
Esta distribuição reflete uma estratégia diversificada de ocupação de espaços institucionais. Enquanto a Alego concentra a maioria das candidaturas, sugerindo um foco na política regional e nas questões específicas do estado, a presença de candidatos ao Congresso Nacional demonstra ambições mais amplas e a intenção de influenciar políticas públicas em nível federal.
Em relação à filiação partidária, o Partido dos Trabalhadores (PT) lidera com quatro candidatos, seguido pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB) e pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), ambos com duas candidaturas cada. Os demais partidos representados são MDB, Unidade Popular (UP), Partido Verde (PV) e PSDB, cada um com um candidato. Esta diversidade partidária é significativa, pois mostra que a questão da representatividade LGBTQIA+ transcende as fronteiras ideológicas tradicionais e está presente em diferentes espectros políticos.
Perfil dos Candidatos: Trajetórias Diversas e Experiências Variadas
A lista de candidatos revela perfis bastante distintos, tanto em termos de experiência política quanto de atuação profissional. Entre os nomes mais conhecidos está Fabrício Rosa, vereador de Goiânia pelo PT e uma das figuras mais emblemáticas da política LGBTQIA+ em Goiás. Sua candidatura a deputado estadual representa a continuidade de uma trajetória já consolidada no cenário político local.
Outro nome de destaque é Matheus Ribeiro, jornalista que conquistou projeção nacional ao apresentar o Jornal Nacional. Candidato pelo PSDB à Alego, Ribeiro já havia demonstrado força eleitoral ao receber 46.875 votos na disputa pela Prefeitura de Goiânia. Sua presença ilustra como profissionais de comunicação estão utilizando sua visibilidade para ingressar na política institucional.
A lista também inclui nomes com forte atuação em movimentos sociais e áreas específicas. Mãe Isabel de Oxum, candidata a deputada federal pelo PT, representa a interseccionalidade entre identidade de gênero e tradições religiosas afro-brasileiras. Maju Ferrari, também do PT, e Bárbara Bombom, do PSOL, completam o grupo de mulheres trans que disputam cadeiras na Câmara Federal.
Entre os candidatos estaduais, destacam-se Bombeira Luna (MDB), Cris Souza (PSB), Ju Damando (PT), Mateus Moura (PSOL) e Samuel Mendes (PSB). Victor Dutra, do PV, aparece como primeiro suplente na chapa de Isaura Lemos (PSB) ao Senado, representando uma estratégia de inserção através de chapas majoritárias.
Orientações Sexuais Declaradas: Um Mosaico de Identidades
Um aspecto particularmente relevante deste levantamento é a diversidade de orientações sexuais e identidades de gênero declaradas pelos candidatos. Os registros eleitorais mostram declarações de pessoas lésbicas, gays, bissexuais, pansexuais e assexuais, refletindo a pluralidade dentro da própria comunidade LGBTQIA+.
Bombeira Luna e Cris Souza declararam-se lésbicas, enquanto Fausto André, candidato a deputado federal pela UP, identificou-se como assexual. Ju Damando declarou-se bissexual, e Mateus Moura aparece como pansexual. Samuel Mendes e Victor Dutra declararam-se gays. Mãe Isabel de Oxum também consta como lésbica nos registros eleitorais.
Esta diversidade de declarações é importante porque desmonta estereótipos e mostra que a comunidade LGBTQIA+ não é homogênea. Cada orientação sexual e identidade de gênero traz consigo experiências específicas de discriminação, desafios e perspectivas que podem enriquecer o debate legislativo quando representadas adequadamente nos espaços de poder.
Candidaturas Indeferidas e Renúncias: O Processo Eleitoral em Movimento
Além das 12 candidaturas deferidas, o levantamento identificou outros três nomes que inicialmente apareceram no processo eleitoral, mas que não integram a contagem final de candidatos aptos. Alexandre Cruz e Diego Jejees tiveram suas candidaturas indeferidas pela Justiça Eleitoral, enquanto a Terapeuta Ariel Cruz optou pela renúncia à disputa.
Estes casos ilustram a dinâmica natural do processo eleitoral, onde registros podem mudar de situação durante a tramitação na Justiça Eleitoral. O indeferimento pode ocorrer por diversos motivos, desde irregularidades documentais até questões relacionadas à elegibilidade do candidato. Já a renúncia pode ser motivada por estratégias políticas, questões pessoais ou reorganização das chapas partidárias.
É fundamental distinguir entre candidatos registrados e candidatos aptos, pois apenas estes últimos estarão efetivamente na cédula eleitoral. O número de 12 candidaturas LGBTQIA+ deferidas em Goiás representa, portanto, o contingente real que disputará as eleições de 2026.
Contexto Nacional: Avanços Graduais na Representação Política
A presença de candidatos LGBTQIA+ em Goiás ocorre em um contexto nacional de ampliação gradual da representatividade política desse grupo. As eleições municipais de 2024 registraram um recorde histórico: 225 pessoas LGBTQIA+ foram eleitas em todo o país, sendo 222 vereadores e três prefeitos, segundo levantamento da organização VoteLGBT. Este número representa mais que o dobro dos 97 eleitos em 2020 para os mesmos cargos.
No entanto, quando se observa o Congresso Nacional, a proporção ainda permanece relativamente pequena. Nas eleições de 2022, apenas 20 pessoas LGBTQIA+ foram eleitas para cargos no Legislativo e no Executivo, representando cerca de 1% das 513 cadeiras da Câmara dos Deputados. Entre elas estavam cinco deputados federais.
A atual legislatura registrou avanços históricos significativos. Em 2023, Erika Hilton (PSOL-SP) e Duda Salabert (PDT-MG) tornaram-se as primeiras mulheres trans a ocupar cadeiras na Câmara dos Deputados. Em 2026, Erika Hilton assumiu a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, ampliando ainda mais a presença LGBTQIA+ em espaços de comando dentro do Congresso.
A Importância da Coleta de Dados Oficiais
Uma mudança metodológica importante ocorreu recentemente na forma como a Justiça Eleitoral coleta informações sobre orientação sexual. O TSE passou a incluir essa informação nos registros eleitorais a partir das eleições municipais de 2024. Em 2026, pela primeira vez, este dado passou a aparecer nas estatísticas oficiais das eleições gerais.
Até 18 de agosto de 2026, 1,93% dos 20.575 candidatos registrados haviam declarado orientações LGBTQIAPN+, embora o preenchimento deste campo seja opcional. Entre aqueles que efetivamente informaram a orientação sexual, o percentual subiu para 3,58%. Estes números indicam que ainda há espaço para crescimento na declaração voluntária desta informação.
A oficialização desta coleta de dados representa um avanço significativo para a transparência e para o monitoramento da representatividade política. Permite identificar com precisão a presença de pessoas LGBTQIA+ nas eleições sem necessidade de inferências sobre a vida pessoal dos candidatos, respeitando a autodeterminação de cada indivíduo.
Significado Político e Social da Representatividade
Mais do que ampliar quantitativamente o número de candidatos, a presença de pessoas LGBTQIA+ nos espaços de decisão tem um significado profundo relacionado à própria diversidade da representação democrática. Historicamente afastadas de cargos eletivos e de estruturas de poder, essas populações enfrentam desafios específicos que merecem atenção legislativa adequada.
Temas diretamente relacionados à comunidade LGBTQIA+, como combate à discriminação, segurança pública, saúde específica, educação inclusiva, acesso ao mercado de trabalho e direitos civis, continuam sendo objeto de intensas disputas políticas. A presença de representantes com vivências diretas dessas questões amplia as experiências sociais que chegam aos espaços onde são formuladas leis e políticas públicas.
É importante ressaltar que a representatividade não implica uniformidade de pensamento. A comunidade LGBTQIA+ é diversa e está distribuída por diferentes partidos, ideologias e projetos políticos. Candidatos LGBTQIA+ podem defender agendas distintas e até mesmo opostas em determinadas questões. O que une esses candidatos é a experiência compartilhada de marginalização e a compreensão íntima dos desafios enfrentados por essa população.
Desafios e Perspectivas para o Futuro
Apesar dos avanços, os desafios permanecem consideráveis. A sub-representação nos espaços de poder continua sendo uma realidade, especialmente em cargos executivos e em posições de liderança partidária. Além disso, candidatos LGBTQIA+ frequentemente enfrentam violência política, discurso de ódio e barreiras estruturais que dificultam suas campanhas.
A eleição de 2026 em Goiás oferece uma oportunidade concreta de ampliar essa representatividade. Com 12 candidatos aptos distribuídos entre diferentes partidos e cargos, há possibilidades reais de eleger representantes que possam trazer novas perspectivas para o legislativo estadual e federal.
O sucesso destas candidaturas dependerá de múltiplos fatores, incluindo a capacidade de articulação política, o apoio das bases partidárias, a mobilização da sociedade civil e, fundamentalmente, a conscientização do eleitorado sobre a importância da diversidade na representação política.
As eleições de 2026 em Goiás representam, portanto, não apenas uma disputa por cadeiras parlamentares, mas também um teste para a maturidade democrática do estado. A capacidade de eleger representantes de grupos historicamente marginalizados será um indicador claro do quanto a sociedade goiana avançou em direção a uma democracia verdadeiramente inclusiva e representativa.

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